Os segredos da boa saúde de uma tribo que se alimenta da mesma forma há 40 mil anos

Os hadza são uma das poucas tribos coletoras-caçadoras restantes no mundo – e acredita-se que eles habitem o mesmo lugar, no norte da Tanzânia, há 40 mil anos, vivendo de frutas, tubérculos e da carne de 30 mamíferos diferentes. O repórter da BBC Dan Saladino acompanhou a tribo e conta que lições podemos tirar dessa dieta tão rica em bactérias benéficas e protetoras do sistema imunológico.

Deitado de barriga para baixo, coloquei minha cabeça dentro de um túnel escuro e senti o cheiro.

Era o cheiro de um animal…

Mas não conseguia acreditar que alguém fosse entrar ali e tirar esse animal. Esse alguém era Zigwadzee. E o animal era um porco-espinho.

Pensei que talvez ele fosse o mais miúdo do grupo de caçadores e, portanto, a escolha óbvia para a tarefa. Mas, quanto mais eu assistia à cena, mais percebia que na verdade Zigwadzee era quem tinha menos medo de o que pudesse sair do buraco – najas e mambas venenosas, pulgas, carrapatos e o próprio porco-espinho, com seus espinhos cortantes de 35 cm.

Até então, minhas refeições com os hadza haviam sido apenas vegetarianas, como costuma ser para esse povo boa parte do tempo: frutinhas colhidas de arbustos das secas savanas com alguns tubérculos crocantes desenterrados e cozidos em fogueiras improvisadas.

Tubérculos sendo cozidosDireito de imagemJEFF LEACH/DIVULGAÇÃO
Image captionA base da dieta hazda é de frutinhas e tubérculos

Árvores de baobá também eram abundantes e delas saíam frutas cítricas com um pó semelhante ao giz, fonte de um suco rico em fibras e vitamina C.

Essa grande quantidade de fibras – que estão cada vez mais ausentes da dieta de muitos de nós, ocidentais – pode ser justamente um dos indicativos da saúde dos hadzas. Eles também são ávidos consumidores de mel.

Hadza com grãos e frutas colhidosDireito de imagemJEFF LEACH/DIVULGAÇÃO
Image captionBaobá é uma fruta rica em vitamina C

Antropólogos notaram, décadas atrás, que os hadza estão sempre com fome, mas nunca passam fome. Seu entusiasmo pela comida é equivalente à abundância de ingredientes ao seu redor – e às habilidades que esse povo desenvolveu para encontrá-los.

À nossa volta havia coisas comestíveis que eu sequer percebia, mas que as crianças hadza, algumas de quatro anos de idade, já sabiam encontrar.

Direito de imagemJEFF LEACH/DIVULGAÇÃO

Logo, tudo o que eu conseguia escutar de Zigwadzee era sua voz distante e abafada. Ele estava a 2 m de profundidade, dentro de uma rede de túneis e cavernas atrás do porco-espinho. Enquanto mapeava o paradeiro do animal, gritava instruções para seus colegas caçadores na superfície, encarregados de proteger eventuais rotas de fuga.

Depois de 40 minutos, Zigwadzee voltou, coberto de terra e pulgas, pronto para escavar ainda mais fundo, no local exato onde o porco-espinho se escondia.

Ainda que a tribo dos hadza tenha cerca de mil integrantes, calcula-se que apenas 200 a 300 deles sejam puramente coletores-caçadores, que não praticam a agricultura.

Aliás, eles consideram os agricultores pessoas curiosas. Um deles me perguntou: “Por que ficar o dia no campo e esperar semanas ou meses pela comida, sendo que você pode comer frutas do arbusto, coletar todo o mel de que precisa ou alimentar um acampamento inteiro depois de passar apenas uma hora dentro da toca de um porco-espinho?”

É assim que nossos ancestrais buscavam sua comida e supriam suas necessidades. As refeições de Zigwadzee e de seus amigos hadza são o último elo remanescente com as dietas que nós humanos usamos para evoluir. Foi com elas que nosso sistema digestivo se desenvolveu, inclusive o complexo conjunto de bactérias que temos dentro de nosso corpo, o chamado microbioma.

Tem crescido, entre os médicos especializados, a percepção de que o microbioma de nosso sistema digestivo tem grande influência sobre nossa imunidade – e que quanto mais rico e diverso esse microbioma for, menor é o risco de ficarmos doentes.

E acontece que os hadza têm o mais diversificado microbioma digestivo do planeta, justamente por causa de sua dieta.

Entre meus companheiros de viagem estava Tim Spector, professor de epidemiologia genética do King’s College London, cuja missão era descobrir se, caso ele se alimentasse como um hadza, conseguiria um microbioma tão saudável quanto o deles.

Por isso, Spector coletou amostra de suas próprias fezes antes e depois de três dias sob a “dieta hadza”, para verificar se a variedade de bactérias havia mudado.

Os resultados foram impressionantes. Após apenas três dias, a diversidade bacteriana em seu já saudável microbioma havia aumentado em 20%, incluindo bactérias raras e geralmente associadas à boa saúde.

É possível que a pesquisa de Spector ainda leve muitos anos até que chegue a conclusões definitivas sobre dietas ideais. Mas ele precisará ser rápido, porque o estilo de vida dos hadza está mudando.

Nos últimos anos, fazendeiros têm expandido sua atuação dentro do território dos hadza, tendo extinguido 160 hectares de mata nativa anualmente. Pastores e seus rebanhos famintos também estão mais numerosos, afugentando as mais de 30 espécies de mamíferos selvagens que servem de alimentos para os hadza há dezenas de milhares de anos.

Para mim, porém, a maior surpresa foi entrar em uma cabana de argila ali perto e notar prateleiras repletas de latas de refrigerante e pacotes de biscoito.

Eu, que viajara durante nove horas de carro para chegar ao território hadza, logo descobri que as maiores marcas de alimentos processados do mundo haviam chegado ali antes de mim.

Zigwadzee, por sua vez, mantém acesa a chama da sabedoria hadza em sua caçada pelo porco-espinho. Cara a cara com o animal, ele conseguiu cercá-lo com uma vara enquanto dizia: “venha, porco-espinho… venha aqui!”

Os longos espinhos não são o mais impressionante desse animal – mas sim o alto barulho que ele produz, intensificado a cada golpe de Zigwadzee.

 

 

 

 

 

(BBC)

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