REFLEXÕES DE UMA AVÓ DIANTE DA GELÉIA GERAL DO OBSCURANTISMO QUE NOS ASSOLA

 

 

Uma criança está sempre atravessada por 3 gerações: a de seus avós, a de seus pais e a sua própria. Minha geração cresceu em meio a filmes de Fellini, Goddard, Bunuel, De Sicca, Pasolini, Glauber e outros tantos, lendo poesia e bons textos literários. Sim, textos clássicos. Não me lembro de literatura juvenil na época. A literatura era uma só, a que nos introduzia e mergulhava nas letras bem escritas. A escola, lugar de discussões onde o tradicional e o progressista dialogavam de Sartre a Santo Agostinho, nos conduzia mais longe no universo das idéias. O pensar era livre, mesmo quando proibido.

Sobrevivi aos anos de ditadura me alimentando das peças teatrais que conseguia assistir, dos shows musicais que frequentava antes do som ser cortado no palco e das leituras solitárias. José Celso, Oduvaldo Vianna Filho, Gonzaguinha, Chico, Gil, Caetano e muitos mais fizeram parte fundamental da minha formação. A lista é extensa e a produção farta. Não tenho nenhuma saudade desses anos, mas sinto orgulho da produção cultural e artística de minha geração.

O que resultou de tudo isso em mim constitui o que tenho para legar aos meus netos: uma história, um modo de absorver o mundo e uma cabeça pensante.E gosto de acreditar que é o que eles terão na vida adulta – uma história para contar, um modo particular de olhar e entender o mundo e uma cabeça pensante.

Ninguém aprende a pensar sem ter dúvidas, sem confrontos de idéias, sem divergências, sem conhecimento, sem cultura. Por isso, me assusto quando vejo as tentativas oficiais, principalmente as provenientes do obscurantismo religioso, que pretendem impedir que a criança e o jovem se apoderem do que constitui o maior patrimônio da humanidade – o conhecimento científico e a cultura acumuladas em séculos.

Ao falar de obscurantismo religioso, esclareço. Não sou contra a religião. Pelo contrário, a ligação do humano com o sagrado nos é inerente. Mas esse encontro só é possível, se aceitarmos os muitos diversos nomes de deus. E cada qual que procure o seu. A religião escolhida e nomeada é UM caminho, a verdade é a vida. Esta é plena de opções, vertentes, escolhas, pensares.

Creio que a mudança social que todos desejamos tem seus principais pilares na Educação. Educação não como retórica, mas como ação. Ação libertadora. O mundo na bolha familiar é muito pequeno para o filhote humano ávido de descobertas, pensamentos, experimentações.

A ideia de transformar a escola em uma extensão da bolha familiar, dando aos pais um lugar que não lhes pertence, o de determinar aquilo que seus filhos podem e devem aprender, ouvir, ler e pensar, rouba da criança seu futuro.

Aos pais, como primeiros outros de seus filhos, cabe fornecer a base afetiva do olhar e da voz, responsável pelos contornos do corpo, das letras, da identidade. E à escola cabe justamente alargar horizontes para além da visão familiar, introduzir conhecimentos, favorecer descobertas, revelar subjetividades, facilitar a construção do pensar de futuros cidadãos comprometidos com o bem estar coletivo e um planeta sustentável.

Sair da bolha familiar tem preço, como tudo na vida. Ficar também. Romper a casca e os limites é morrer para renascer no mundo. Assim como a semente representa, ao mesmo tempo, a morte do fruto e o nascer do broto.

 

 

Como diz Gil,
“só quem não amar os filhos
vai querer dinamitar os trilhos da estrada onde passou passarada
passa agora a garotada destino ao futuro”
(Roque Santeiro – o rock) 1985

 

 

 

 

Margarida Serrão, mãe de 3, avó de 2, psicóloga formada pela UFRJ e orientadora educacional..

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