Maquiavel,a ambição, a necessidade, a militância e o desejo

O florentino Nicolau Maquiavel, considerado pai da ciência política moderna, certa vez afirmou que “os homens quando não são forçados a lutar por necessidade, lutam por ambição”.É lógico que devemos fazer as devidas relativizações sobre o conceito de “necessidade” e de “ambição” que o escritor concebeu mergulhado no mundo novo da renascença, no entanto, ainda que os objetos da necessidade e da ambição da sua época sejam diversos dos de hoje, podemos facilmente compreendê-las.

Seja por ambição ou por necessidade, muitos indivíduos agem de acordo uma frase que, embora não esteja presente nos escritos do pensador, representa a síntese do maquiavelismo: “os fins justificam os meios”. Utilizando a ideia pura da justa “necessidade”, evocando as mais nobres causas se utilizam da militância cega para defender suas pequenas paixões e ambições pessoais. E nesse afã de alcançar seus fins, se promiscuem nas alianças, flertam com os demônios que outrora os horrorizavam e confraternizam com os algozes que ainda ontem lhes humilhavam, oprimiam e lhes cortavam a carne. Ainda que, em alguns casos, lhes dessem migalhas de pão, já amassado. Mas nada disso assustaria Maquiavel que certa vez afirmou que “na política, os aliados atuais são os inimigos de amanhã” ou vice-versa.

Nesse “fundamentalismo” pessoal, perdem toda noção de ética que poderiam ter assimilado. E caem no simplismo de julgar o todo, adotando o maniqueísmo primitivo que identifica o “outro” como um mal a ser erradicado. Essa miopia militante nada tem de louvável e mesmo que provoque vitórias por endemia, não haverá qualquer honra na conquista se esta for alcançada com recursos de origem duvidosa. Inclusive, mais uma vez Maquiavel nos diz “… deve ter o cuidado de não fazer aliança com um que seja mais poderoso, senão quando a necessidade o compelir, se tornará prisioneiro do aliado”.

Aquela mesma miopia não permite discernir que existem muitas variáveis numa “guerra”, inclusive a deserção justificada, quando não se reconhece na luta um general digno ou legítimo.

Pelos caminhos da militância se encontram ainda aqueles que trazem dentro de si o produtivo desejo de transformação. Esses são movidos por ideologia e a sua militância é consistente e coerente.Carregam o sangue novo que clama por renovação.  Se distinguem dos “republicanos do 13 de maio”(para fazer uma alusão aos fazendeiros que aderiram à república após perderem seus escravos) pela profundidade dos seus desejos e pela pré-disposição ao sacrifício real pela causa. Possuem um discurso convincente e uma prática coerente. Mas são poucos e passam despercebidos eclipsados pelas bandeiras baratas da necessidade e da ambição.
De Nicolau, ao advento do séc. XXI, um turbilhão de ideias movimentou o pensamento humano, edificando esse hoje cômico, forjado por efêmeras verdades. Mesmo assim, muitas concepções desse renascentista ainda se fazem valer ilustrando o cotidiano na medida que ainda hoje “os homens quando não são forçados a lutar por necessidade, lutam por ambição”. E de forma derradeira escreveu também Nicolau que o homem “esquece de forma mais fácil a morte do pai do que a perda do patrimônio”.

Rogério Carvalho

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